Em um cenário global marcado por instabilidade geopolítica, tensões econômicas e reconfiguração de poder, a aproximação entre Europa e América Latina deixou de ser apenas uma pauta diplomática, tornou-se uma estratégia essencial de futuro.
Nos últimos anos, líderes europeus têm reforçado alianças com países latino-americanos, buscando novos parceiros diante de um mundo cada vez mais multipolar, imprevisível e energeticamente desafiador. Nesse contexto, a relação entre Itália e Brasil emerge não apenas como simbólica, mas como profundamente estratégica.
Uma nova ordem global exige novas parcerias
A guerra na Ucrânia expôs de forma contundente a vulnerabilidade energética europeia. Ao mesmo tempo, metas ambiciosas como o Pacto Verde Europeu, que prevê redução de emissões de até 72,5% até 2035, exigem soluções concretas, escaláveis e economicamente viáveis.
É nesse cenário que a América Latina ganha protagonismo.
Mais do que uma região historicamente conectada à Europa, passa a ser vista como:
- parceira energética
- aliada estratégica
- fonte de inovação sustentável
- eixo de estabilidade em um mundo fragmentado
E, dentro desse contexto, o Brasil ocupa uma posição central.
Brasil: potência energética do presente e do futuro
O Brasil não é apenas um parceiro, é parte da solução.
Com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o país apresenta:
- cerca de 85% a 90% da eletricidade proveniente de fontes renováveis
- liderança global em biocombustíveis
- etanol com até 90% menos emissão que a gasolina
- enorme potencial em hidrogênio verde
Além disso, políticas públicas como a Política Nacional de Transição Energética consolidam um caminho estruturado rumo a uma economia de baixo carbono.
Essa combinação de escala, sustentabilidade e eficiência coloca o Brasil no centro da transição energética global.
Itália: tecnologia, influência e visão estratégica
Se o Brasil oferece escala e recursos, a Itália aporta tecnologia, know-how industrial e influência dentro da União Europeia.
Durante minha atuação no Parlamento italiano, tive a oportunidade de liderar iniciativas que inseriram o etanol brasileiro no debate energético europeu, incluindo a aprovação, em 2017, de uma moção pioneira para ampliação da mistura de etanol na gasolina, aproximando-se do modelo brasileiro.
Hoje, com o avanço de diretrizes como a RED III, a Europa reconhece o papel estratégico dos biocombustíveis avançados, abrindo espaço para soluções já dominadas pelo Brasil.
Convergência estratégica: energia, inovação e investimento
A aproximação entre Europa e América Latina ganha forma concreta por meio de parcerias industriais e investimentos.
Empresas como a Eni já demonstram interesse crescente no Brasil, especialmente em áreas como:
- biocombustíveis avançados
- Sustainable Aviation Fuel (SAF)
- hidrogênio verde
- economia circular
Essa cooperação permite:
- descarbonizar a economia europeia
- gerar empregos no Brasil
- reduzir custos energéticos
- acelerar a transição global
Não se trata de idealismo ambiental, trata-se de pragmatismo econômico.
Um modelo de desenvolvimento possível
A ampliação do uso de biocombustíveis brasileiros na Europa, por exemplo, pode:
- reduzir significativamente a dependência energética europeia
- diminuir emissões no setor de transporte
- impulsionar cadeias produtivas sustentáveis no Brasil
- promover uso de áreas já degradadas, sem avanço sobre florestas
Essa é a essência de uma transição energética justa: equilibrar crescimento econômico, responsabilidade ambiental e inclusão social.
Europa e América Latina: uma aliança que se consolida
A reaproximação entre Europa e América Latina vai além da energia. Trata-se de uma convergência de interesses em:
- defesa da democracia
- inovação tecnológica
- segurança alimentar
- sustentabilidade
Eventos recentes e acordos em negociação mostram que essa parceria está deixando o campo das intenções para entrar no terreno da ação.
O papel de Itália e Brasil na liderança global
A realização da COP30 na Amazônia reforçou esse protagonismo conjunto. O Brasil demonstrou sua força em bioeconomia, enquanto a Itália consolidou sua posição como ponte estratégica entre Europa e América Latina.
Agora, o desafio é transformar esse alinhamento em resultados concretos:
- acordos bilaterais
- certificação de biocombustíveis
- fundos de investimento conjuntos
- programas de capacitação e inovação
Uma parceria inevitável
Itália e Brasil têm todos os elementos para liderar a nova ordem energética do século XXI.
Não será o petróleo que definirá os protagonistas do futuro, mas a capacidade de produzir energia limpa, acessível e sustentável.
Como ex-parlamentar italiana e advogada internacional, reafirmo: essa parceria não é apenas desejável, é estratégica e inevitável.
O futuro da transição energética global passa, necessariamente, por uma cooperação sólida entre Europa e América Latina.
E, nesse cenário, Roma e Brasília não são apenas pontos no mapa, são polos de transformação.



