Há momentos em que a história deixa de ser apenas memória e passa a se transformar em oportunidade. A atual aproximação entre Itália e Brasil é um desses momentos.
A presença do vice-presidente do Conselho de Ministros e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, no Brasil, acompanhado por uma grande delegação empresarial italiana, representa muito mais do que uma agenda diplomática ou uma missão comercial. É um sinal claro de que a Itália está olhando para o Brasil como um parceiro estratégico para o futuro.
Nesta semana, mais de 100 empresas italianas acompanham a missão liderada por Tajani, em uma agenda que passa por Buenos Aires, São Paulo e Brasília. A Confindustria também conduz uma missão empresarial com mais de 90 empresas italianas, buscando ampliar negócios e estabelecer novas parcerias nos dois principais mercados do Mercosul.
E isso acontece justamente em um momento em que o acordo entre União Europeia e Mercosul começa a abrir novas perspectivas para comércio, investimentos e integração produtiva.
Uma relação que vai muito além da imigração
Brasil e Itália possuem uma ligação que não pode ser medida apenas pelos números do comércio exterior.
Milhões de brasileiros carregam sobrenomes italianos, mantêm tradições, preservam a língua, visitam a Itália, possuem dupla cidadania e mantêm vínculos familiares, culturais e afetivos com o país.
Essa comunidade ítalo-brasileira é, na minha visão, uma das maiores pontes diplomáticas, econômicas e culturais que os dois países possuem.
Mas precisamos dar um passo além.
A relação entre Itália e Brasil não pode permanecer restrita à história da imigração ou à riqueza do patrimônio cultural que compartilhamos. Precisamos transformar essa proximidade em cooperação econômica, inovação, investimentos, internacionalização de empresas e geração de oportunidades.
É exatamente isso que começa a acontecer agora.
Segundo Antonio Tajani, o intercâmbio comercial entre os dois países ultrapassou € 11 bilhões em 2025, e o Brasil é hoje o principal parceiro comercial da Itália na América do Sul. O ministro também destaca o potencial criado pelo acordo UE-Mercosul e a possibilidade de ampliar significativamente o acesso das empresas italianas a esse enorme mercado.
O número que chama atenção: R$ 83 bilhões
Uma das informações mais relevantes dessa nova fase veio da estimativa apresentada pelo presidente da agência italiana ICE, Matteo Zoppas.
A previsão é de que as exportações italianas para o Mercosul possam crescer em aproximadamente € 14 bilhões — cerca de R$ 83 bilhões — nos próximos dez anos.
E existe a possibilidade de que esse número ainda esteja subdimensionado.
A razão é simples: não estamos falando apenas de redução de tarifas. A diminuição de barreiras burocráticas e não tarifárias, a abertura de novos mercados e a possibilidade de integração das empresas em cadeias produtivas locais podem ampliar significativamente esse potencial.
Esse cenário interessa diretamente ao Brasil.
Porque uma maior presença italiana não significa apenas produtos italianos chegando ao mercado brasileiro. Significa também investimentos, transferência de tecnologia, criação de empresas, geração de empregos, formação profissional e novas parcerias com empresas brasileiras.
É uma via de mão dupla. Oportunidade para as pequenas e médias empresas
Quando falamos em relações comerciais entre países, muitas vezes pensamos apenas nas grandes multinacionais.
Mas existe uma enorme oportunidade nas pequenas e médias empresas italianas.
A Itália construiu uma das economias industriais mais reconhecidas do mundo justamente pela força de suas empresas familiares, de seus distritos industriais e de negócios especializados em áreas como máquinas e equipamentos, tecnologia, design, energia, infraestrutura, indústria farmacêutica, agroindústria e bens de alto valor agregado.
A missão empresarial que está no Brasil reúne justamente setores com grande potencial de complementaridade com a economia brasileira, incluindo transição energética, infraestrutura sustentável, máquinas e equipamentos, indústria farmacêutica, tecnologias digitais e agroindústria.
O Brasil, por sua vez, possui escala, mercado consumidor, recursos naturais, capacidade produtiva e uma posição estratégica dentro da América Latina.
A combinação desses dois potenciais pode ser extraordinária.
O papel das pessoas que fazem a ponte
É aqui que acredito que existe uma questão fundamental. A aproximação entre dois países não acontece apenas por meio de governos e grandes empresas. Ela acontece por meio de pessoas.
Advogados, empresários, investidores, profissionais liberais, universidades, associações, câmaras de comércio, instituições financeiras e, principalmente, brasileiros e italianos que conhecem as duas realidades.
Durante minha trajetória entre Brasil e Itália, tive a oportunidade de acompanhar de perto como diferenças jurídicas, burocráticas, culturais e institucionais podem dificultar uma iniciativa empresarial — mas também como, quando existe conhecimento e interlocução adequada, essas mesmas diferenças podem ser transformadas em vantagem competitiva.
Para uma empresa italiana que deseja entrar no mercado brasileiro, conhecer o Brasil é tão importante quanto conhecer seu próprio produto.
E o mesmo vale para uma empresa brasileira que deseja conquistar o mercado italiano e, a partir dele, acessar outros mercados europeus.
Precisamos construir mais pontes de conhecimento, confiança e negócios.
A diplomacia econômica precisa chegar ao empreendedor
A missão liderada por Tajani traz uma mensagem importante: a diplomacia italiana quer estar cada vez mais conectada ao setor produtivo.
Essa mudança de perspectiva é fundamental.
Diplomacia não deve ser apenas relacionamento entre governos. Ela também precisa criar condições para que empresários encontrem parceiros, investidores encontrem oportunidades e empresas consigam superar barreiras para atuar em novos mercados.
A missão da Confindustria no Brasil mostra exatamente esse movimento. A entidade está levando empresas italianas a Buenos Aires, São Paulo e Brasília, com encontros B2B e uma agenda voltada à ampliação da presença empresarial italiana na região.
Esse é o caminho.
Brasil e Itália precisam pensar juntos o futuro
Existe uma coincidência interessante neste momento. A Itália procura ampliar sua presença internacional e diversificar mercados para suas empresas.
O Brasil procura ampliar investimentos, tecnologia, produtividade e inserção internacional.
O acordo UE-Mercosul cria uma estrutura para aproximar esses interesses.
E existe, entre os dois países, uma comunidade humana que já construiu uma ponte que nenhuma política comercial precisou criar.
Agora precisamos utilizar essa ponte.
O desafio é fazer com que a relação Itália–Brasil deixe de ser percebida apenas como uma relação entre dois países amigos e passe a ser reconhecida como uma aliança estratégica para negócios, inovação e desenvolvimento.
Não se trata de escolher entre Brasil e Itália.
Trata-se de construir oportunidades entre os dois.
Uma ponte para o futuro
A história da imigração italiana no Brasil começou há gerações com pessoas que atravessaram o oceano em busca de uma vida melhor.
Hoje, talvez estejamos diante de uma nova travessia.
Não mais de navios carregados de imigrantes, mas de empresas, investimentos, conhecimento, tecnologia e projetos.
O desafio desta geração é transformar a herança que recebemos em uma nova agenda de futuro.
Como ex-parlamentar italiana, advogada internacional e empreendedora, acredito que essa ponte pode — e deve — ser muito maior.
A Itália tem muito a oferecer ao Brasil.
O Brasil tem muito a oferecer à Itália.
E, se soubermos transformar afinidades históricas em estratégia, conhecimento em negócios e relações institucionais em oportunidades concretas, poderemos construir uma parceria muito mais ambiciosa do que a que temos hoje.
O futuro das relações entre Itália e Brasil não deve ser apenas lembrado pela história que compartilhamos. Deve ser construído pelas oportunidades que seremos capazes de criar juntos.



