Como escolher uma universidade em um mundo transformado pela Inteligência Artificial? Brasil e Itália enfrentam o desafio de preparar jovens para o futuro do trabalho
Escolher uma universidade sempre foi uma das decisões mais importantes na vida de um jovem. Durante décadas, essa escolha esteve associada a uma equação relativamente previsível: identificar uma profissão, cursar uma graduação, conquistar um diploma e construir uma carreira.
Hoje, essa equação mudou.
A Inteligência Artificial está transformando profissões, empresas, universidades e a própria maneira como aprendemos. Diante de uma tecnologia que evolui em uma velocidade extraordinária, milhões de estudantes e famílias passaram a se perguntar: como escolher hoje uma formação para um mercado de trabalho que continuará mudando amanhã?
A resposta não está em tentar prever exatamente quais profissões existirão daqui a vinte anos. Está em preparar-se para um mundo no qual a capacidade de aprender, adaptar-se e tomar boas decisões será cada vez mais importante.
Brasil e Itália diante do mesmo desafio
O Brasil e a Itália vivem realidades diferentes, mas enfrentam um desafio comum: preparar uma nova geração para um mercado de trabalho no qual a relação entre seres humanos e tecnologia será cada vez mais próxima.
Na Itália, essa discussão está inserida em um contexto europeu mais amplo. A União Europeia vem estabelecendo regras e políticas para o desenvolvimento e o uso da Inteligência Artificial, inclusive na educação, com atenção a temas como alfabetização em IA, ética, proteção de dados e formação de estudantes e professores.
Há uma premissa importante por trás desse debate: não basta aprender a utilizar a tecnologia. É preciso compreender como ela funciona, reconhecer seus limites, avaliar seus resultados e utilizá-la de maneira responsável.
A Itália acompanha esse movimento e vem incorporando a Inteligência Artificial às discussões sobre educação, formação profissional, pesquisa e inovação. A preocupação não é apenas formar especialistas em tecnologia, mas preparar profissionais de diferentes áreas para uma realidade na qual a IA estará presente em praticamente todos os setores.
No Brasil, o debate também ganhou espaço. O país vem discutindo políticas e diretrizes para o desenvolvimento e o uso responsável da Inteligência Artificial na educação, enquanto universidades e instituições de pesquisa ampliam iniciativas relacionadas à tecnologia, ciência de dados, inovação e novas metodologias de aprendizagem.
Uma das principais diferenças está no estágio dessa construção. Enquanto a Itália está inserida em uma estratégia europeia comum e em um ambiente regulatório continental, o Brasil ainda consolida sua abordagem nacional, buscando conciliar inovação, educação, inclusão e responsabilidade.
Mas a pergunta fundamental é a mesma:
Como preparar os jovens para profissões que ainda não sabemos exatamente como serão?
A IA vai substituir profissões?
Essa questão aparece com frequência entre estudantes que estão escolhendo uma graduação. Um jovem interessado em Direito, por exemplo, pode imaginar que a Inteligência Artificial irá competir diretamente com a profissão de advogado. A tecnologia já consegue pesquisar documentos, organizar grandes volumes de informação, auxiliar na análise de contratos e realizar tarefas que antes consumiam muitas horas de trabalho.
Mas isso significa que o advogado se tornará desnecessário? Não.
A profissão de advogado é muito mais ampla do que as tarefas que podem ser automatizadas. Interpretar conflitos, compreender pessoas, negociar, argumentar, avaliar riscos, tomar decisões e assumir responsabilidade continuam sendo atividades que exigem julgamento humano.
O mesmo raciocínio vale para médicos, engenheiros, jornalistas, administradores, economistas, arquitetos, professores e profissionais das mais diversas áreas.
A Inteligência Artificial pode substituir determinadas tarefas. Uma profissão, porém, é muito mais do que um conjunto de tarefas.
Essa distinção é fundamental para quem está escolhendo uma carreira.
Não acredito que o estudante deva procurar simplesmente uma profissão que esteja “protegida” da Inteligência Artificial. Essa profissão provavelmente não existe.
O caminho mais seguro é buscar uma formação que permita acompanhar as transformações.
O que uma boa universidade deve oferecer?
Uma boa universidade não deve preparar o aluno apenas para o primeiro emprego. Deve prepará-lo para continuar aprendendo ao longo da vida.
Isso significa oferecer conhecimento sólido, pensamento crítico, capacidade de análise, criatividade e autonomia intelectual. Ao mesmo tempo, deve ensinar os estudantes a compreender e utilizar as novas tecnologias de maneira consciente e estratégica.
Essa questão é particularmente importante quando observamos a experiência italiana e europeia.
A discussão sobre Inteligência Artificial não pertence exclusivamente às faculdades de Engenharia, Computação ou Ciência de Dados.
Um advogado precisa compreender IA. Um médico precisa compreender IA. Um professor precisa compreender IA. Um economista precisa compreender IA. Um profissional de Relações Internacionais precisa compreender IA.
Isso não significa que todos precisem aprender a programar.
Significa compreender de que maneira a tecnologia interfere em sua profissão, quais oportunidades ela cria, quais riscos apresenta e quais decisões continuarão dependendo do julgamento humano.
Tecnologia sem inclusão não é progresso
O Brasil tem uma oportunidade enorme nesse cenário. Temos universidades de excelência, centros de pesquisa, uma população jovem e um mercado com grande potencial de inovação.
Mas existe um desafio que não pode ser ignorado: garantir que a Inteligência Artificial não amplie desigualdades que já existem.
Não podemos construir um futuro no qual apenas estudantes de determinadas universidades, regiões ou grupos sociais tenham acesso às ferramentas e aos conhecimentos necessários para trabalhar com IA.
A transformação digital precisa vir acompanhada de democratização do conhecimento.
E existe outro aspecto que merece atenção: quanto mais avançada a tecnologia, mais importantes podem se tornar determinadas competências humanas.
Comunicação. Liderança. Criatividade. Ética. Capacidade de negociação. Empatia. Pensamento crítico.
A tecnologia pode produzir respostas. Mas ainda precisamos de pessoas capazes de compreender o contexto, avaliar consequências e decidir o que fazer com essas respostas.
O diferencial será cada vez mais humano e internacional
Essa combinação entre tecnologia e competências humanas será particularmente importante em um mundo cada vez mais internacional.
Como advogada internacional e ex-parlamentar, vejo na aproximação entre Brasil e Itália uma oportunidade que vai muito além da tecnologia.
Um jovem brasileiro pode estudar na Itália, participar de uma pesquisa em outro país europeu, trabalhar remotamente para uma empresa internacional e construir uma carreira que atravesse diferentes fronteiras.
O mesmo pode acontecer com um jovem italiano em relação ao Brasil e a outros mercados.
Nesse contexto, aprender idiomas, compreender outras culturas e buscar experiências internacionais deixam de ser apenas diferenciais acadêmicos. Tornam-se ferramentas profissionais.
E a própria Inteligência Artificial pode reforçar essa importância.
Quando uma ferramenta consegue traduzir textos, produzir conteúdos e acessar informações em poucos segundos, o diferencial deixa de ser simplesmente ter acesso à informação.
Passa a ser saber interpretá-la, contextualizá-la, questioná-la e transformá-la em decisões.
Cinco perguntas antes de escolher uma universidade
Por isso, diante de tantas possibilidades, eu faria algumas perguntas antes de escolher uma universidade:
- A instituição ensina fundamentos ou apenas ferramentas que podem ficar ultrapassadas em poucos anos?
- O curso prepara o estudante para lidar criticamente com a Inteligência Artificial?
- Existe espaço para pesquisa, empreendedorismo, estágios e experiências práticas?
- Há oportunidades de intercâmbio e contato com outras culturas e mercados?
- O estudante aprenderá a utilizar a IA ou simplesmente a depender dela?
Essas perguntas são importantes tanto no Brasil quanto na Itália.
Não sabemos quais ferramentas serão utilizadas daqui a dez anos. Muitas das tecnologias que hoje consideramos revolucionárias poderão ser substituídas por outras que ainda nem existem.
Por isso, a formação universitária precisa ensinar algo mais profundo do que uma tecnologia específica.
Precisa ensinar a aprender.
A universidade do futuro
Talvez essa seja uma das principais mudanças provocadas pela Inteligência Artificial na educação.
Durante muito tempo, valorizamos quem acumulava conhecimento. Hoje, em um mundo no qual o acesso à informação é praticamente ilimitado, precisamos valorizar também quem sabe selecionar, questionar, interpretar e aplicar esse conhecimento.
A universidade do futuro não será necessariamente aquela que tiver mais tecnologia dentro de suas salas de aula.
Será aquela que conseguir equilibrar tecnologia e humanidade.
Aquela que ensinará o estudante a utilizar a Inteligência Artificial sem abrir mão da autonomia intelectual. Que formará profissionais capazes de trabalhar com máquinas sem se tornar dependentes delas. E que compreenderá que a educação não termina com a entrega de um diploma.
Brasil e Itália estão diante de uma transformação histórica. Cada um a partir de sua realidade, seus desafios e suas instituições, precisa preparar seus jovens para um mundo no qual as fronteiras entre tecnologia, educação e trabalho serão cada vez mais estreitas.
Por isso, talvez a pergunta correta para um jovem que está escolhendo sua graduação não seja: “Qual profissão terá mais empregos daqui a vinte anos?”
A pergunta deveria ser: “Qual formação vai me preparar para continuar aprendendo e criando oportunidades em um mundo que ainda não conhecemos?”
Essa mudança de perspectiva é fundamental.
A Inteligência Artificial não torna a universidade menos importante.
Torna uma boa universidade ainda mais importante.
Porque, quando as máquinas conseguem produzir respostas em segundos, o verdadeiro diferencial passa a ser saber fazer as perguntas certas, compreender as respostas, questioná-las e transformá-las em conhecimento, decisões e novas possibilidades.
É esse profissional que Brasil, Itália e o mundo precisarão formar: não apenas alguém capaz de trabalhar com Inteligência Artificial, mas alguém capaz de continuar pensando, criando e decidindo em um mundo transformado por ela.



