A partir desta semana, o cenário político brasileiro entra em uma fase ainda mais intensa. Com a campanha eleitoral oficialmente nas ruas e na internet desde 16 de agosto e a aproximação do início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, marcado para 28 de agosto, partidos, candidatos e eleitores passam a viver de maneira mais concreta o período decisivo que antecede as eleições de outubro.
É um momento em que discursos ganham espaço, alianças são colocadas à prova, estratégias partidárias se tornam mais visíveis e o eleitor começa a receber, de forma mais direta, as propostas daqueles que pretendem representá-lo.
A política brasileira, entretanto, tem características muito próprias. E, para quem teve a oportunidade de acompanhar de perto o funcionamento das instituições italianas, como parlamentar e posteriormente como advogada atuante no cenário internacional, é impossível não perceber as diferenças entre os dois sistemas eleitorais.
Mais do que uma comparação entre dois países, olhar para Brasil e Itália permite compreender como diferentes regras eleitorais moldam comportamentos políticos, estratégias partidárias e até a relação entre candidatos e eleitores.
Duas democracias, duas formas de escolher seus representantes
No Brasil, as eleições gerais de 2026 colocam em disputa diferentes cargos: presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. O eleitor participa de uma eleição que combina diferentes lógicas de representação, com eleições majoritárias para alguns cargos e proporcionais para outros.
Na disputa para presidente e governador, por exemplo, vence o candidato que obtiver a maioria necessária dos votos, com possibilidade de segundo turno quando nenhum candidato alcança a maioria absoluta dos votos válidos. Já para deputados, o sistema é proporcional, fazendo com que a composição dos parlamentos dependa não apenas do desempenho individual dos candidatos, mas também da votação obtida pelos partidos e federações.
É uma característica que muitas vezes surpreende quem está acostumado ao sistema italiano.
Na Itália, as eleições políticas nacionais escolhem os integrantes das duas Casas do Parlamento — a Camera dei Deputati e o Senato della Repubblica. O sistema atualmente utilizado combina componentes majoritários e proporcionais. Nas eleições de 2022, por exemplo, uma parcela dos parlamentares foi eleita em colégios uninominais, enquanto a maior parte das cadeiras foi distribuída pelo sistema proporcional.
Há ainda uma diferença fundamental: na Itália, o cidadão não escolhe diretamente o primeiro-ministro.
O eleitor vota para eleger o Parlamento. A partir da composição parlamentar e das relações de força entre os partidos e coalizões, forma-se o governo. O sistema italiano é, portanto, parlamentarista. O governo depende da confiança do Parlamento para permanecer no poder.
No Brasil, por outro lado, o presidente da República é escolhido diretamente pelo eleitorado e exerce simultaneamente as funções de chefe de Estado e chefe de governo.
Essa diferença muda completamente a dinâmica de uma campanha.
No Brasil, a figura do candidato presidencial tem um peso enorme
No modelo brasileiro, a eleição presidencial tende a concentrar grande parte da atenção pública. Os candidatos apresentam seus projetos diretamente ao eleitor, disputam o voto em todo o território nacional e constroem campanhas fortemente associadas à sua imagem, sua trajetória e sua capacidade de comunicação.
A propaganda eleitoral, nesse contexto, ganha uma dimensão estratégica enorme.
Desde 16 de agosto, candidatas, candidatos, partidos, federações e coligações podem realizar propaganda eleitoral, inclusive na internet, dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. A partir de 28 de agosto, começa também a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
É interessante observar como o calendário eleitoral brasileiro é minuciosamente regulamentado. Há regras específicas para propaganda digital, comícios, distribuição de material, impulsionamento de conteúdo, prestação de contas e utilização dos meios de comunicação.
Essa estrutura revela uma característica importante da democracia brasileira: a existência de uma Justiça Eleitoral altamente institucionalizada, com o Tribunal Superior Eleitoral exercendo papel central na organização e fiscalização do processo.
Na Itália, o Parlamento está no centro da disputa
A lógica é diferente porque o Parlamento Italiano ocupa posição central na formação do governo.
O eleitor italiano vota para escolher seus representantes na Câmara e no Senado, e a formação de maiorias parlamentares é determinante para a composição do Executivo. As duas Casas possuem funções legislativas fundamentais dentro do sistema de bicameralismo italiano.
Isso faz com que alianças partidárias tenham um significado particularmente importante.
Na política italiana, uma eleição pode ser vencida em número de votos, mas a capacidade de formar uma maioria parlamentar é igualmente decisiva. Partidos precisam pensar não apenas na própria votação, mas também na possibilidade de construir uma maioria capaz de sustentar um governo.
É uma lógica diferente daquela que o eleitor brasileiro encontra quando escolhe diretamente o presidente da República.
Uma diferença que vai além das urnas
As diferenças entre Brasil e Itália não estão apenas na forma de votar. Elas influenciam a própria cultura política.
No Brasil, existe uma forte personalização das campanhas. A figura do candidato, especialmente nas eleições majoritárias, ocupa um espaço central.
Na Itália, embora líderes políticos também tenham enorme importância, a estrutura partidária e as coalizões possuem um peso histórico maior na definição das estratégias eleitorais e na formação do governo.
Outro aspecto relevante é a representação dos italianos que vivem fora do país. A Itália possui uma Circoscrizione Estero, prevista constitucionalmente, pela qual cidadãos italianos residentes no exterior elegem representantes para o Parlamento. O voto dos italianos no exterior ocorre por correspondência, dentro das regras específicas estabelecidas pela legislação italiana.
Essa experiência é especialmente interessante para quem acompanha a participação política das comunidades italianas espalhadas pelo mundo.
O que os dois modelos têm em comum?
Apesar das diferenças, Brasil e Itália compartilham algo essencial: a democracia depende da participação consciente dos cidadãos.
Nenhum sistema eleitoral é apenas um conjunto de regras técnicas. As regras determinam como os votos se transformam em representação, mas são os cidadãos que dão sentido ao processo democrático.
Por isso, este período de campanha deveria ser também um período de reflexão.
Em meio à velocidade das redes sociais, às disputas políticas e à polarização, é fundamental que o eleitor procure conhecer as propostas, a trajetória e os compromissos dos candidatos. A propaganda eleitoral deve servir para aproximar o cidadão da política — e não para afastá-lo dela.
Como alguém que viveu a política italiana por dentro e que hoje acompanha as relações entre Brasil, Itália e Europa a partir da perspectiva jurídica e internacional, acredito que comparar nossas experiências democráticas é uma oportunidade de aprendizado.
O Brasil possui uma democracia eleitoral sofisticada, uma Justiça Eleitoral estruturada e uma participação popular de enorme dimensão. A Itália, por sua vez, traz a experiência de uma democracia parlamentar em que os partidos e a construção de maiorias têm papel fundamental.
São caminhos diferentes para um mesmo princípio: a legitimidade do poder público nasce da vontade popular.
E, justamente por isso, quando a campanha eleitoral se intensifica, mais importante do que escolher apenas um nome é compreender o que está em jogo.
As eleições não são apenas uma disputa entre candidatos. São uma escolha sobre o futuro do país, sobre o modelo de sociedade que queremos construir e sobre quem terá a responsabilidade de representar os cidadãos nos próximos anos.
No Brasil e na Itália, com sistemas diferentes e histórias políticas distintas, permanece a mesma responsabilidade: votar é participar da construção da democracia.
E democracia, acima de tudo, exige participação, informação e responsabilidade.



