Agosto Lilás: combater a violência contra a mulher é um compromisso que ultrapassa fronteiras

O Agosto Lilás é um período de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher. Mais do que uma campanha, é uma oportunidade para colocarmos no centro do debate um problema que atravessa famílias, gerações, classes sociais e fronteiras.

Como mulher, mãe, advogada, empresária e ex-deputada italiana, esse é um tema que acompanha minha trajetória pessoal e profissional. Minha história entre Brasil e Itália me permitiu observar diferentes realidades, legislações e políticas públicas, mas também perceber algo que permanece comum: ainda temos um longo caminho pela frente para garantir que toda mulher possa viver com dignidade, liberdade, respeito e segurança.

Na Itália, trabalhei em casos de feminicídio e conheci de perto situações que evidenciaram a gravidade da violência contra as mulheres e a necessidade de respostas mais efetivas do poder público.

Quando assumi meu mandato como deputada no Parlamento Italiano, um dos primeiros atos que assinei foi relacionado à Lei do Feminicídio, em um momento em que o país fortalecia sua legislação e ratificava importantes diretrizes europeias de prevenção e combate à violência contra a mulher.

Posteriormente, em 2019, a Itália avançou novamente com a aprovação do chamado Código Vermelho, estabelecendo mecanismos para dar maior rapidez e prioridade à atuação das autoridades diante de denúncias relacionadas à violência doméstica e de gênero.

São avanços importantes. Mas a existência de leis, por si só, não encerra o problema.

Brasil e Itália: realidades diferentes, um desafio em comum
Brasil e Itália possuem histórias, estruturas sociais e legislações distintas. Ainda assim, os dois países enfrentam o desafio de transformar instrumentos legais e políticas públicas em proteção efetiva para as mulheres.

Leis são indispensáveis. Elas estabelecem direitos, responsabilizam agressores e criam instrumentos de prevenção e proteção. Mas precisamos garantir que uma mulher, ao procurar ajuda, encontre uma rede preparada para acolhê-la, orientá-la e protegê-la.

A denúncia precisa ser levada a sério. O pedido de ajuda precisa encontrar resposta. E a mulher que rompe o silêncio não pode se sentir sozinha justamente no momento em que mais precisa do apoio da sociedade e das instituições.

Por isso, o enfrentamento à violência contra a mulher exige uma atuação conjunta: governos, Justiça, forças de segurança, escolas, famílias, organizações da sociedade civil e cidadãos.

Não podemos tratar a violência como um problema particular, restrito à vida de quem a sofre. Quando uma mulher é violentada, toda a sociedade é atingida.

A transformação também começa pela educação
Se queremos mudanças profundas e duradouras, precisamos ir além da resposta à violência depois que ela acontece. É fundamental investir na prevenção.

E prevenção começa com educação.

Precisamos ensinar crianças e jovens, desde os primeiros anos de vida, sobre respeito, responsabilidade, igualdade, diálogo e valorização da vida. A escola tem um papel fundamental nessa construção, assim como a família.

É dentro de casa e nos espaços de formação que podemos ajudar a construir novas referências de convivência, mostrando que ciúme não é demonstração de amor, controle não é cuidado, humilhação não é normal e violência jamais pode ser aceita como forma de resolver conflitos.

Educar para o respeito é também uma política de prevenção.

Se queremos diminuir a violência no futuro, precisamos formar hoje uma geração que compreenda o valor da vida, da dignidade humana e do respeito às diferenças.

Não podemos parar de lutar
O Agosto Lilás precisa representar mais do que uma cor, uma campanha ou um calendário de ações. Precisa ser um chamado permanente à responsabilidade.

Precisamos falar sobre violência contra a mulher. Precisamos fortalecer as redes de apoio. Precisamos incentivar quem presencia uma situação de violência a não permanecer indiferente. Precisamos garantir que as mulheres conheçam seus direitos e saibam onde buscar proteção.

E, principalmente, precisamos compreender que essa luta não pertence somente às mulheres.

Homens, famílias, escolas, empresas, instituições e governos também precisam assumir sua responsabilidade. Uma sociedade que protege suas mulheres é uma sociedade que protege famílias, crianças e as próximas gerações.

Minha experiência entre Brasil e Itália reforçou em mim a convicção de que podemos aprender com diferentes modelos, compartilhar experiências e aprimorar constantemente nossas formas de prevenção e proteção. Mas nenhuma legislação será suficiente se não houver também uma transformação cultural.

Fazer o bem para as mulheres significa fazer o bem para o país.

Não apenas durante o Agosto Lilás, mas todos os dias.

Precisamos transformar conscientização em atitude, denúncia em acolhimento, legislação em proteção e educação em mudança cultural.

Brasil e Itália podem estar separados por um oceano, mas o compromisso com a dignidade e a segurança das mulheres não pode conhecer fronteiras.

Não podemos parar de lutar. Precisamos causar impacto para que haja mudança.

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