Há relações entre países que nascem de tratados, acordos diplomáticos e interesses econômicos. Outras, porém, são construídas de maneira muito mais profunda: nas famílias, nas histórias de vida, na língua, na comida, nos costumes e nas memórias que atravessam gerações.
A relação entre a Itália e a América Latina pertence a essa segunda categoria.
Para compreender a força dos vínculos que unem italianos e latino-americanos ainda hoje, é preciso voltar ao século XIX, quando milhões de italianos deixaram a Europa em busca de novas oportunidades. Entre 1860 e 1920, estima-se que cerca de 7 milhões de italianos tenham emigrado. Brasil e Argentina estiveram entre os principais destinos desse grande movimento migratório.
Foi um movimento provocado por diferentes fatores: dificuldades econômicas, transformações sociais, crescimento populacional, falta de oportunidades e as profundas mudanças políticas que acompanharam a unificação italiana. Para muitas famílias, partir significava deixar para trás a terra natal, mas também significava construir uma possibilidade de futuro.
E foi justamente na América Latina que muitos desses sonhos encontraram espaço para florescer.
No Brasil, a presença italiana tornou-se especialmente expressiva entre o final do século XIX e o início do século XX. Durante o período conhecido como a “grande imigração”, entre 1870 e 1920, os italianos representaram aproximadamente 42% dos imigrantes que chegaram ao país — cerca de 1,4 milhão de pessoas. Vieram famílias do Vêneto, da Lombardia, da Campânia, da Calábria e de tantas outras regiões da Península. Muitos foram trabalhar nas lavouras de café de São Paulo; outros se estabeleceram no Sul do Brasil. Com o passar dos anos, uma parcela significativa migrou para os centros urbanos e passou a atuar no comércio, na indústria, nos serviços e no empreendedorismo.
Na Argentina, o fenômeno também foi extraordinário. Buenos Aires recebeu uma enorme comunidade italiana, que contribuiu decisivamente para a formação social e cultural da cidade. A presença italiana também se espalhou por outras regiões argentinas, criando comunidades que preservaram tradições, sotaques, receitas e formas próprias de sociabilidade.
Mas os imigrantes não levaram apenas sua força de trabalho.
Levaram uma maneira de enxergar a vida.
Levaram a importância da família, o valor da mesa compartilhada, o respeito às tradições, a religiosidade, o gosto pela música, pela arte e pela convivência. Levaram dialetos que se misturaram ao português e ao espanhol, receitas que ganharam novos ingredientes e costumes que passaram a fazer parte da identidade dos países que os receberam.
A imigração italiana, portanto, não foi simplesmente um deslocamento de pessoas entre dois continentes. Foi um encontro de culturas.
Talvez a maior demonstração da força dessa relação esteja justamente naquilo que se tornou tão cotidiano que muitas vezes deixamos de perceber.
No Brasil, palavras, expressões, hábitos alimentares e tradições de origem italiana foram incorporados à cultura nacional. A culinária é talvez o exemplo mais evidente: massas, polenta, risotos, pães, vinhos e tantas outras tradições foram reinterpretados e passaram a integrar o repertório brasileiro.
O mesmo aconteceu com a música, a arquitetura, o design, o cinema, o teatro, o comércio e a vida comunitária.
Em São Paulo, por exemplo, a presença italiana deixou marcas profundas na formação da cidade. A cultura italiana passou a fazer parte da própria identidade paulistana, assim como aconteceu em diferentes regiões brasileiras e em outros países da América Latina.
Isso revela algo muito interessante: a cultura italiana não permaneceu intacta na América Latina, mas também não desapareceu.
Ela se transformou. Tornou-se ítalo-brasileira, ítalo-argentina, ítalo-uruguaia. Criou novas identidades, nas quais a origem italiana passou a conviver com a realidade latino-americana.
É justamente nessa mistura que reside parte da riqueza dessa relação.
Para os descendentes, a Itália muitas vezes deixou de ser apenas um país de origem dos antepassados e passou a representar uma dimensão afetiva da própria identidade.
Conhecer a cidade de onde veio um bisavô, recuperar um sobrenome, aprender italiano, pesquisar documentos antigos ou simplesmente preparar uma receita de família pode se transformar em uma verdadeira viagem às próprias raízes.
Ao longo das décadas, esse sentimento também contribuiu para fortalecer as relações institucionais entre a Itália e os países latino-americanos.
Hoje, essas relações vão muito além da memória da imigração. Envolvem educação, ciência, cultura, comércio, investimentos, inovação, turismo e cooperação política.
Minha própria trajetória é, de certa maneira, parte dessa história. Sou brasileira, de origem italiana, advogada internacional, empreendedora e tive a oportunidade de atuar também na política italiana. Vivo na Itália há mais de duas décadas e, ao longo desse percurso, pude experimentar na prática o que significa transitar entre duas culturas.
Fui vereadora no Brasil e, posteriormente, tive a honra de ser a primeira brasileira nata a ocupar uma cadeira no Parlamento Italiano, entre 2013 e 2018.
Essa experiência me permitiu compreender que a relação entre Itália e América Latina não é apenas uma questão histórica. Ela continua presente no cotidiano de milhões de pessoas.
É possível perceber isso nas famílias ítalo-brasileiras, nos empresários que mantêm negócios entre os dois países, nos jovens que estudam ou trabalham na Europa, nos descendentes que recuperam suas raízes e nas novas gerações que constroem suas vidas entre diferentes culturas.
Viver entre dois países nos ensina que identidade não precisa ser uma escolha entre uma coisa e outra.
Podemos ser brasileiros e italianos.
Podemos carregar a memória de nossos antepassados e, ao mesmo tempo, construir algo completamente novo.
Podemos pertencer a mais de um lugar.
Existe ainda uma dimensão particularmente importante dessa história: o empreendedorismo.
Muitos imigrantes italianos chegaram à América Latina em condições extremamente difíceis. Começaram pequenos negócios, trabalharam na agricultura, abriram oficinas, lojas, restaurantes e fábricas. Seus filhos e netos ampliaram essas iniciativas e participaram da construção de importantes setores da economia brasileira e argentina.
Hoje, essa dinâmica assumiu uma nova forma.
As novas gerações já não atravessam o Atlântico apenas em busca de trabalho. Circulam entre os dois lados para estudar, empreender, investir, criar empresas, desenvolver projetos, trabalhar com inovação e estabelecer novas conexões profissionais.
A ponte construída pelos imigrantes do passado tornou-se uma plataforma para as relações do futuro.
Mais de cem anos depois das grandes ondas migratórias, Itália e América Latina continuam ligadas por uma história que não terminou.
Pelo contrário: ela ganhou novos capítulos.
Se no passado a travessia era feita em navios, hoje ela acontece por meio de aviões, negócios, universidades, redes digitais, intercâmbios culturais e relações familiares. Se antes os italianos chegavam à América Latina em busca de oportunidades, hoje vemos também um movimento inverso: latino-americanos que escolhem a Itália para estudar, trabalhar, empreender ou reencontrar suas raízes.
Essa circulação cria uma relação cada vez mais dinâmica.
Acredito que essa seja uma das maiores riquezas da chamada “italianità”: ela não está limitada às fronteiras geográficas da Itália. Ela vive onde existem pessoas que preservam, reinventam e compartilham essa cultura.
A Itália e a América Latina estão unidas não apenas pelo passado, mas por uma identidade construída em conjunto.
Uma identidade feita de encontros, de famílias, de histórias de coragem, de trabalho e empreendedorismo, de cultura e, sobretudo, de pessoas que aprenderam que atravessar uma fronteira não significa necessariamente deixar uma parte de si para trás.
Às vezes, significa levar suas raízes consigo — e permitir que elas floresçam em uma nova terra.
É isso que aconteceu com milhões de italianos que chegaram à América Latina.
E é isso que continua acontecendo, todos os dias, com as novas gerações que fazem da Itália e da América Latina não dois mundos separados pelo oceano, mas duas margens de uma mesma ponte.



