O fim do voto por correspondência: um passo decisivo para fortalecer a democracia italiana no exterior

Como ex-parlamentar eleita pela circunscrição da América do Sul e defensora incansável dos direitos dos italianos no exterior, acompanho com atenção as discussões no governo da primeira-ministra Giorgia Meloni sobre uma proposta de impacto histórico: o fim do voto por correspondência e a adoção obrigatória da votação presencial nos consulados para eleições legislativas e referendos.

Antes de qualquer análise, é indispensável destacar um ponto que sempre defendi, tanto durante meu mandato quanto na minha atuação profissional: a urgente necessidade de implementação do voto eletrônico, utilizando o sistema SPID, com total segurança, rastreabilidade e acessibilidade para todos os eleitores no exterior. Inclusive, lançamos uma petição defendendo essa modernização, que pode (e deve) ser novamente divulgada e acompanhada.

Essa defesa nasce de um diagnóstico claro e incontornável: o modelo postal atual não apenas facilita fraudes como apresenta vulnerabilidades gravíssimas. Há suspeitas, amplamente divulgadas e denunciadas, de impressão irregular de grandes volumes de cédulas, algo viabilizado justamente pela falta de controle e fiscalização adequados. Diversas denúncias formais já chegaram à Justiça italiana e às Juntas Eleitorais do Senado e da Câmara dos Deputados. Não se trata de opiniões isoladas, mas de falhas estruturais que se acumulam há anos.

Por isso, embora a proposta do governo avance em certos aspectos, é fundamental afirmar desde o início: modernização verdadeira não se limita a trocar o voto postal pelo voto presencial, mas sim a garantir um sistema eletrônico seguro, que ofereça igualdade de acesso a todos, especialmente àqueles que vivem longe dos consulados.

As falhas estruturais do voto postal

Criado para facilitar a participação dos mais de 6 milhões de italianos residentes no exterior, o voto por correspondência falhou em seu objetivo. As taxas de participação são baixíssimas: menos de 20% nas últimas eleições legislativas. No Brasil, segundo país com mais italianos inscritos, 918.999 cidadãos conforme dados do MAECI (31/10/2025), a abstenção chega a 60% em diversas regiões.

As causas desse fracasso são conhecidas:

  • instruções complexas, escritas em italiano arcaico e sem suporte multilíngue;
  • dependência de serviços postais internacionais lentos e imprevisíveis;
  • milhares de cédulas que não chegam ou retornam fora do prazo;
  • votos invalidados por erros de envio;
  • e, sobretudo, ausência de controles rígidos, permitindo manipulações.

Durante meu mandato, testemunhei diretamente vulnerabilidades profundas, desde o “voto inquinato” até suspeitas de pacotes inteiros de cédulas preenchidas irregularmente. O caso de São Paulo, em 2017, é apenas um dos muitos episódios que demonstram o quão frágil é esse modelo.

Nenhuma democracia moderna pode se apoiar em um sistema tão permeável a riscos.

A votação presencial nos consulados: avanço parcial, mas insuficiente

A proposta do governo Meloni, ao eliminar o voto postal e concentrar o processo nos consulados, traz melhorias na segurança e fiscalização. Em tese, urnas presenciais nos 140 consulados italianos ao redor do mundo poderiam reduzir significativamente fraudes e inconsistências.

Entretanto, é impossível ignorar um problema estrutural: a desigualdade de acesso.

Em países continentais como Brasil, Argentina, Estados Unidos ou Austrália, milhares de cidadãos vivem a 600, 800 ou até 1.200 quilômetros do consulado mais próximo. Para essas pessoas, votar presencialmente se torna inviável.

Por isso, ainda que a proposta aumente a transparência, não resolve o problema principal: garantir que todos os italianos no exterior possam votar e não apenas aqueles que vivem nos grandes centros. A única solução realmente universal que vejo é o voto eletrônico seguro, auditável e integrado ao SPID.

Por que o voto eletrônico é a solução ideal

Ao longo do meu mandato, apresentei propostas e recolhi assinaturas para que o Parlamento avançasse nessa direção. O voto eletrônico:

  • garante igualdade de acesso para moradores do interior e de regiões remotas;
  • elimina o risco de impressão irregular e falsificação de cédulas;
  • evita extravios postais;
  • reduz custos operacionais;
  • aumenta a transparência por meio de rastreamento digital;
  • dialoga com as novas gerações, conectadas e participativas.

A votação presencial nos consulados pode representar uma etapa de transição, mas não deve ser o ponto final. A diáspora italiana merece um sistema moderno, seguro e verdadeiramente representativo.

A decisão de abolir o voto por correspondência é um passo positivo e finalmente reconhece que o sistema atual é insustentável. Mas essa transição não pode, em hipótese alguma, resultar na exclusão de milhões de italianos que vivem longe dos consulados.

A única resposta plenamente democrática é o voto eletrônico — seguro, auditável e acessível — permitindo que todos os italianos no exterior, tanto nas grandes capitais quanto nas pequenas cidades, exerçam seu direito fundamental ao voto.

A diáspora italiana construiu pontes pelo mundo. Agora, precisamos construir a ponte que leva cada cidadão, sem exceção, de volta à urna.

Participe da petição

As eleições italianas no exterior baseadas no voto impresso enviado por correspondência é um sistema vulnerável a atrasos, extravios, manipulações e falsificações. Isso compromete a legitimidade da participação de milhões de italianos que vivem fora do país. Para garantir transparência, segurança e acessibilidade, defendemos a implementação de um sistema digital moderno, seguro e integralmente auditável.

Assine e ajude a transformar o futuro do voto no exterior! Clique aqui e lute pela segurança do nosso voto!

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