1º de maio de 2026: o dia em que Mercosul e Europa começaram, de fato, a caminhar juntos

Não é todo dia que testemunhamos o início concreto de um projeto que levou mais de duas décadas para sair do papel. O acordo entre Mercosul e União Europeia não é mais uma promessa diplomática: desde 1º de maio de 2026, sua etapa comercial já está em vigor, ainda que de forma provisória, marcando um daqueles raros momentos em que a história se transforma em prática.

A partir dessa data, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai passam a operar sob novas regras comerciais com o bloco europeu. Isso significa que o acordo deixou de ser apenas um texto assinado para se tornar um instrumento ativo nas relações econômicas entre os dois blocos.

Acompanhei essa negociação por mais de 20 anos, primeiro como observadora, depois como parlamentar no Parlamento italiano, representando a América do Sul, e hoje como advogada internacional. Posso afirmar: este não é apenas um tratado comercial, é uma escolha estratégica em favor da cooperação em um mundo cada vez mais fragmentado.

E essa escolha já começa a produzir efeitos concretos.

Desde 1º de maio, entram em vigor as primeiras medidas práticas do acordo. Entre elas, a redução imediata de tarifas para uma parcela relevante de produtos exportados pelo Mercosul à União Europeia, especialmente em setores onde já havia consenso entre as partes. Para outros itens, passam a contar cronogramas de desgravação tarifária que podem chegar a até 12 ou 15 anos.

Também passam a valer regras comuns de origem, fundamentais para definir quais produtos podem se beneficiar das preferências tarifárias, além de mecanismos de facilitação de comércio, que simplificam procedimentos aduaneiros e reduzem burocracias nas exportações e importações.

Outro ponto importante que já começa a produzir efeitos é a ampliação do acesso ao mercado europeu para produtos agrícolas do Mercosul, dentro de cotas previamente estabelecidas, incluindo carnes, açúcar, etanol e café. Ao mesmo tempo, setores industriais passam a operar com maior previsibilidade, diante da redução gradual de tarifas que antes chegavam a 35%.

Além disso, entram em vigor dispositivos que garantem maior segurança jurídica para investimentos e estabelecem bases para a abertura de mercados em áreas como serviços e compras governamentais, ainda que alguns desses pontos avancem de forma progressiva.

Vivemos tempos de protecionismo, guerras comerciais e instabilidade geopolítica. Nesse cenário, a decisão de dois blocos, que juntos somam mais de US$ 22 trilhões em riqueza e mais de 700 milhões de pessoas, de abrir mercados, reduzir barreiras e estabelecer regras comuns não é trivial. É, na verdade, um sinal de maturidade.

Mas talvez o maior ganho não esteja apenas nos números e sim na mensagem.

Ao colocar o acordo em prática, Mercosul e União Europeia afirmam que ainda acreditam no multilateralismo, no comércio baseado em regras e na cooperação como instrumento de desenvolvimento. E isso, hoje, tem um peso político enorme.

Naturalmente, o caminho não é isento de desafios. As críticas existem e são legítimas. A questão ambiental, especialmente no Brasil, continuará sendo um ponto sensível. Não basta assinar compromissos; será preciso cumpri-los com transparência, fiscalização e responsabilidade. A credibilidade do acordo dependerá disso.

Sob uma perspectiva ítalo-brasileira, esse momento tem um significado ainda mais especial. A Itália, com seus laços históricos, culturais e econômicos com o Brasil, tende a ocupar uma posição estratégica nessa nova fase. Vejo, na prática, o potencial de ampliação de negócios, investimentos e inovação entre os dois países.

Mas, acima de tudo, vejo uma oportunidade.

O Brasil tem diante de si a chance de se reposicionar no cenário internacional não apenas como fornecedor de commodities, mas como protagonista em cadeias globais de valor. A Europa, por sua vez, encontra no Mercosul um parceiro confiável em um mundo cada vez mais incerto.

O acordo já começou a valer. Agora começa a parte mais difícil e mais importante.

Transformar esse avanço em crescimento real, empregos de qualidade e desenvolvimento sustentável. Fazer com que ele não seja apenas um marco diplomático, mas uma ferramenta concreta de transformação econômica e social.

O dia 1º de maio de 2026 pode ser lembrado como o início de uma nova era.

Mas isso dependerá do que faremos a partir de agora.

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