Hoje, como em todos os 1º de dezembro desde 1988, o mundo pinta-se de vermelho para lembrar que a AIDS ainda não foi derrotada. Trinta e sete anos depois, a doença que já matou mais de 42 milhões de pessoas continua a infectar cerca de 1,3 milhão de novas pessoas por ano, segundo dados globais da UNAIDS.
O Brasil, que já foi exemplo mundial no combate à epidemia, vive hoje um momento preocupante de estagnação e até retrocesso em algumas regiões.
A boa notícia é que sabemos exatamente o que funciona: testagem regular e gratuita; tratamento precoce e contínuo (indetectável = intransmissível); profilaxia pré-exposição (PrEP); uso correto e consistente de preservativo; redução de danos para usuários de drogas; e educação sexual nas escolas e nas redes sociais.
A má notícia é que estamos afrouxando precisamente nesses pontos. O dado que mais dói é o que atinge as crianças.
Entre 2010 e 2024, o número de novas infecções por HIV em crianças de 0 a 14 anos no Brasil voltou a crescer após quase duas décadas de queda contínua. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2024 do Ministério da Saúde, houve aumento de até 30% em algumas regiões do país, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste. Isso significa que estamos falhando na prevenção da transmissão vertical (de mãe para filho), uma das maiores conquistas brasileiras dos anos 2000 está sendo perdida por falta de testagem precoce na gestação, interrupção no acompanhamento pré-natal e dificuldade de acesso a medicamentos antirretrovirais em algumas maternidades.
Esse retrocesso infantil é o sinal mais cruel de que a vigilância foi abandonada. Quando crianças voltam a nascer com HIV em um país que já teve taxa de transmissão vertical próxima de 1%, algo está profundamente errado na cadeia de cuidado.
Nos últimos anos, vimos cortes em programas de prevenção, diminuição da distribuição gratuita de preservativos em algumas unidades de saúde, resistência ideológica à educação sexual nas escolas e o crescimento assustador de discursos que estigmatizam pessoas vivendo com HIV. Some-se a isso o aumento das infecções entre jovens de 15 a 24 anos (no Brasil, esse grupo já representa quase 40% dos novos casos), e temos um cenário que exige alerta vermelho.
Como ex-parlamentar italiana de origem brasileira, acompanhei de perto dois sistemas de saúde pública que funcionam quando há vontade política: o italiano e o brasileiro. Na Itália, por exemplo, os dados mais recentes mostram que, em 2024, foram registradas 2.379 novas infecções por HIV, equivalente a 4,0 casos por 100 mil habitantes —, uma incidência inferior à média da Europa Ocidental.
Isso demonstra que é possível, mesmo em países de alta renda, manter o controle da epidemia com políticas públicas consistentes. Mas mesmo na Europa, o desafio persiste: no conjunto da Região Europeia da OMS, cerca de 3 milhões de pessoas vivem com HIV, e muitos casos continuam a ser diagnosticados tarde demais.
Esses dados nos lembram que a AIDS é um problema global, e que a solidariedade internacional e o compromisso coletivo importam. A luta no Brasil não é isolada: dialoga com realidades europeias e globais, com os padrões de direitos humanos defendidos pela ONU, pela OMS, pela UNAIDS. E como advogada internacional de direitos humanos, enxergo essa luta dentro de um quadro maior: o do direito universal à saúde, da dignidade humana, da igualdade, da justiça.
Globally, em 2024, 40,8 milhões de pessoas viviam com HIV, segundo a UNAIDS. Dessas, milhões ainda não têm acesso ao tratamento, e a crise de financiamento global, denunciada recentemente pela própria UNAIDS, ameaça reverter décadas de avanços.
A meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, compromisso assinado pelo Brasil no âmbito ONU — só será alcançada se houver prioridade política, investimentos sustentados, proteção de direitos e eliminação do estigma.
Por isso, neste 1º de dezembro, faço um apelo direto aos líderes políticos italianos, brasileiros e a todos os países europeus e latino-americanos: garantam orçamento crescente e protegido para os programas de combate à AIDS e Hepatites Virais; ampliem imediatamente o atendimento gratuito para todos os grupos de risco, sem burocracia; retomem a distribuição de preservativos em larga escala, inclusive nas escolas, eventos e transporte público; promovam educação sexual laica, baseada em evidências científicas; combatam a desinformação e o estigma com campanhas nacionais claras e corajosas; e aprovem leis que protejam as pessoas vivendo com HIV contra discriminação no trabalho, na saúde e na sociedade.
A ciência nos deu ferramentas que os anos 1980 nem sonhavam: tratamento que salva e impede a transmissão, PrEP, testagem rápida, protocolos que praticamente zeram a transmissão de mãe para filho. Mas nenhuma ferramenta funciona se ficar na gaveta por falta de prioridade política.
Não podemos permitir que o cansaço, o negacionismo ou o falso moralismo nos façam retroceder três décadas. A AIDS não escolhe partido político, orientação sexual, religião ou classe social. Ela só precisa de uma brecha de descuido para voltar a matar.
Não podemos aceitar que crianças voltem a nascer com HIV em 2025, ou que faltem recursos para salvar vidas.
Neste Dia Mundial, reacendamos a chama vermelha da conscientização, da prevenção e, sobretudo, da responsabilidade coletiva, da solidariedade internacional e da justiça social. Porque acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, a meta global da ONU e da comunidade internacional, não é utopia: é obrigação moral, política e jurídica.
Viva quem luta. Viva, especialmente as crianças, que têm o direito de nascer sem o vírus.



