Vistos para a Itália: uma nova oportunidade para descendentes de italianos

Em um mundo cada vez mais interligado — mas ainda cheio de barreiras migratórias — o governo italiano acaba de abrir uma porta significativa para milhões de descendentes de italianos espalhados pelo mundo. Só no Brasil, estima-se que exista uma comunidade de cerca de 30 milhões de ítalo-descendentes. Como brasileira de nascimento e cidadã italiana por jus sanguinis, acompanho de perto essas mudanças: tanto como advogada de imigração quanto como defensora da diáspora italiana no Parlamento de Roma, onde tive a honra de ser a primeira deputada nascida no Brasil.

Com o decreto publicado em 24 de novembro de 2025 na Gazzetta Ufficiale, a Itália reconhece a urgência de atrair mão de obra qualificada e, ao mesmo tempo, valorizar as próprias raízes históricas. Mas o que isso significa para você, descendente de italianos? E como essa nova facilitação pode ser o primeiro passo para reconstruir o vínculo com a terra dos seus antepassados?

As mudanças recentes na imigração italiana

Assim como outros países europeus, a Itália enfrenta um acelerado envelhecimento populacional e a falta de profissionais em setores essenciais — entre eles construção civil, saúde, turismo e tecnologia. Para 2025, o decreto flussi prevê apenas 151 mil vagas para trabalhadores não europeus, dentro de um total de 452 mil para o triênio 2023–2025. Até então, brasileiros e demais descendentes competiam por essas vagas limitadas, o que tornava o processo lento e extremamente burocrático.

A situação se tornou ainda mais complexa quando, em março de 2025, o governo da premiê Giorgia Meloni aprovou a Lei 74/2025, limitando o direito à cidadania por jus sanguinis apenas a filhos e netos de italianos nascidos na Itália. Isso excluiu bisnetos, tataranetos e gerações posteriores — pessoas que, até então, tinham direito pleno ao reconhecimento da cidadania, bastando comprovar a linhagem. Milhares de processos foram congelados, e a Corte Constitucional deve julgar a constitucionalidade da lei em 11 de março de 2026 — um debate que acompanho de perto, pois considero a cidadania um patrimônio cultural inalienável.

Diante das críticas e das demandas econômicas, o governo apresentou uma reação pragmática: o Decreto Tajani, assinado pelo chanceler Antonio Tajani. A nova norma cria um canal especial de vistos de trabalho, sem limite numérico, destinado exclusivamente a descendentes de italianos em sete países com forte presença da diáspora: Brasil, Argentina, EUA, Austrália, Canadá, Venezuela e Uruguai.

É uma mudança estratégica: restringe a cidadania, mas facilita a imigração laboral. Como defendi em audiências parlamentares, essa medida ajuda a suprir a falta de mão de obra e, ao mesmo tempo, reforça o recupero delle radici italiane — a reconexão com as raízes.

Quem pode se beneficiar e o que é exigido


O novo visto é destinado a todos os descendentes de italianos, independentemente da geração. Ou seja, bisnetos, tataranetos e além podem se beneficiar, desde que consigam comprovar a ascendência. Não é necessário ter cidadania italiana.

O foco principal é o visto de trabalho subordinado (não sazonal), embora alguns casos de trabalho autônomo também sejam contemplados.

Requisitos básicos

Comprovação de descendência italiana: certidões de nascimento, casamento e óbito, traduzidas por tradutor juramentado — exatamente como nos processos de cidadania.
Contrato de trabalho válido na Itália: uma proposta formal de uma empresa italiana. O próprio empregador solicita a nulla osta junto ao Ministério do Trabalho.
Documentação para o visto: passaporte válido, comprovante de meios financeiros, seguro saúde e atestado de antecedentes criminais.

Como funciona o processo

Na Itália: o empregador solicita a nulla osta.
No consulado italiano no Brasil: você apresenta o pedido do visto D (longa duração), anexando o contrato e os documentos de descendência.
Ao chegar na Itália: em até 8 dias, é necessário solicitar o permesso di soggiorno na Questura.
O prazo médio atual é de 30 a 60 dias, significativamente mais rápido do que o sistema tradicional de cotas.

As vantagens muito além do visto

Esse não é apenas um visto temporário: ele pode ser uma ponte para um futuro definitivo na Itália e na União Europeia.

Após dois anos de residência legal e trabalho regular, você pode solicitar a naturalização italiana, adquirindo cidadania plena e passaporte europeu. Esse status é vitalício e permite viver, trabalhar e estudar em qualquer um dos 27 países da UE.

Além disso, a residência oferece benefícios como:

Acesso ao sistema público de saúde italiano, gratuito para residentes;
Matrículas universitárias com taxas reduzidas, em instituições de prestígio como a Universidade de Bolonha;
Possibilidade de registro no AIRE e participação nas eleições italianas.

No Brasil, onde mais de 682 mil cidadãos já estão inscritos no AIRE, essa medida pode transformar a realidade de milhares de famílias.

E quanto às viagens de curto prazo?

Nada muda: brasileiros continuam isentos de visto para turismo por até 90 dias no espaço Schengen. A partir de 2026, entrará em vigor o ETIAS, uma autorização eletrônica de €7. Para viagens de turismo ou pesquisa genealógica, isso não deve interferir. Para permanências longas, porém, o novo canal de trabalho representa uma verdadeira revolução.

Dicas importantes

Alguns setores exigem conhecimentos básicos de italiano. Sempre recomendo iniciar um curso antes da mudança — isso amplia as oportunidades e facilita a adaptação.

Como advogada, vejo diariamente histórias reais de transformação: a enfermeira de São Paulo agora empregada em Milão, ou o engenheiro gaúcho que reencontrou a família no Vêneto. Mas deixo um alerta: quem protocolou pedido de cidadania antes de 28 de março de 2025 deve continuar pelo caminho tradicional. Para os demais, o novo visto é a alternativa mais viável.

Um movimento histórico

A nova política italiana é, em parte, um reconhecimento tardio da contribuição da diáspora que ajudou a construir países como o Brasil, enviando milhões de trabalhadores entre os séculos XIX e XX.

Se você é descendente, este pode ser o momento decisivo: organize seus documentos, busque um contrato de trabalho e dê o primeiro passo. No Instituto Cidadania Italiana, estamos prontos para orientar você — no Brasil e na Itália — para transformar esse sonho em realidade.

Para mais informações, acompanhe nossos canais oficiais. E lembre-se: cidadania não é apenas um documento — é um legado vivo. Buona fortuna! 

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